PARTE DA TARDE EM UMA LIVRARIA
Os livros comprados pela internet são comprovadamente mais baratos. Mas no embrulho não vêm o aroma das estantes de livros novos, as cores, as pilhas convidativas e as pessoas passeando em torno delas lendo, folheando prazeirosamente.
Da categoria LIBRARIS, os homens, mulheres e crianças - HOMOS SAPIENS LIVREIRUS - são pessoa muito especiais. Encontram a paz, se conectam a ela ao dar o primeiro passo dentro da loja. Fora dela, ainda no corredor de um shopping, quando a avistam o coração já dispara: "Vai lá, vamu lá, ai que vontade, ai eu vou!". E entro.
Ontem havia uma exceção. Sempre tem uma. Havia uma mãe com duas filhas pequenas muito 'ouriçadas', correndo, levando os livros para o leitor de preço, pegando livros com brinquedos. Uma das meninas já havia escolhido o livro que queria. A outra estava em dúvida, não conseguia escolher ou sabia que se escolhesse o passeio terminaria. A mãe, a exceção, visivelmente de 'saco cheio', revirava os olhos e bufava. Até a cor da pele daquela mulher tinha uma cor diferente. Os cabelos desgranhados. Estava realmente enfezada.
Eu fui obrigada a permanecer um tempo na loja observando o ambiente enquanto a funcionária pesquisava como eu teria que proceder a troca. Queria trocar CONVERSA NA CATEDRAL por PANTALEÃO E AS VISITADORAS e A FESTA DO BODE, todos do Mario Vargas Llosa. Havia um entrave porque um deles não tinha naquela loja e eu não podia sair com o que tinha e buscar o outro depois. Sai de lá com um vale troca. A pessoa disse: "Guarda isso bem guardado". Eu respondi: "Que nem ouro!". "Isso mesmo" - ela concordou.
E saí de lá pensando que uma livraria é o que mais se aproxima da ideia de Passargada. Pois lá não nos sentimos como amigos do rei, mas o próprio rei.
Obrigada a minha amiga secreta Cláudia Garcia pela escolha de bom gosto e que se eu não tivesse o livro escolhido, não teria passado essa hora tão boa e não teria esta história para contar.