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A HORA DA INSÔNIA 7

  • Foto do escritor: Rosana Almeida
    Rosana Almeida
  • 17 de jul. de 2020
  • 6 min de leitura

Atualizado: 2 de set. de 2020

Uma [leitura] rapidinha. Não vá dormir sem ela.




Ele...

– Meu bem, você está dormindo?

– Estava.

– Sabe o que estou pensando?

– Se você não me disser, como poderei saber?

– Estou pensando em alguns poemas.

– Sério? Pensamentos bons. Se você não tivesse me acordado é bem provável que teria voltado a dormir.

– Pensando em alguns versos que você costuma repetir...

– Tipo?

Vou-me embora pra Passárgada

– Manuel Bandeira mas, é Pasárgada. Com um esse só. Diz-se pazárgada. Som de zê.

– Verdade?

– Verdadeira.

– E por que será que pegou essa forma de dizer? Todo mundo diz Passár...

– Deixe-me pensar...

Ela se achega para mais perto dele como se precisasse do seu calor para aquecer seu aparelho de pensar. Ele passa o braço esquerdo por baixo dos ombros dela. O queixo quase apoiado em seu ombro, parecendo querer assistir à tela de projeção de seu pensamento...

– Talvez alguém, um dia, sentiu necessidade de dar um passo definitivo para uma mudança radical de vida e se sentiu inspirado para dizer que ia embora e colocou a palavra passo dentro de Pasárgada e virou Passárgada...

– Olha... legal isso!

– Viajei né? Você sabe que gosto.

– Por que você acha que te acordei?

– Obrigada pela parte que não me toca.

– Sua boba, (puxando-a para mais perto, enlaçando a cintura dela com o braço direito e ela se encaixando mais). Você sabe que essa nossa hora faz muita diferença para o meu dia.

– Verdade?

– Verdadeira.

– Tem aquele verso que quando você diz parece sair do fundo da sua alma. Tudo vale a pena...

Quando a alma não é pequena (recitando juntos)

Ela...

– Fernando Pessoa

– Tão verdadeiro isso, não?

– Sim!! Poesia só contem verdades.

– E o poeta não é um fingidor? O poeta é um fingidor/Finge tão completamente/que chega a fingir que é dor/a dor que deveras sente

– Se finge que finge então não. O verdadeiro poeta tem conexão livre com os sentimentos. Se a vivência não for verdadeira, não sai poesia boa. A comunicação com o leitor não acontece.

– Tem um outro que gosto quando você declama: Peço-te/Não pises as violetas/ que trago no olhar. Cheiram a ti. São para ti/ Um bouquet de palavras que floriram/nesse tempo de amor.

– Pessoa.

– Fernando?

– Não, Joaquim Pessoa.

– Você gosta muito desse poeta, não é mesmo? Tem todos os livros dele.

– Amo. Quase todos.

Ele continua...

– O que será que ela fez que ele sentiu como um gesto tão cruel? Pisar as violetas?

– Palavras delicadas.... Pode ser que não o tenha compreendido...

– Mas ele sentiu o gesto dela como crueldade

– Ou será que ela foi desastrada?

– É! Realmente. Parece alguém desastrada. Viajou?

– Claro! Como haveria eu de saber?

– Voltando para Passárgada..

– Pasárgada!

– Sim! Pasárgada. Quando você diz: Lá sou amigo do Rei. Sabe que sinto ciúmes?

– Sério?

– Verdade verdadeira.

– Na Pasárgada todo mundo é amigo do Rei. Você também é.

Quando disse essa última frase procurou olha-lo de frente e percebeu que Ele estava quase dormindo, como se o desabafo do ciúme fosse aquilo que estava procurando expressão e atrapalhando o sono.

– Tem um poema que sei inteiro de cor. Acho que esse nunca declamei para você.

– Sim, qual?

O Senhor é o meu pastor, nada me faltará./ Deitar-me faz em verdes pastos; guia-me mansamente a águas tranquilas./ Refrigera minha alma; guia-me pelas veredas da justiça, por causa do seu nome./ Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum, porque tu estás comigo; a tua vara e o teu cajado me consolam./ Preparas uma mesa perante mim, na presença de meus inimigos; unges a minha cabeça com óleo; o meu cálice transborda./ Certamente que a bondade e a misericórdia me seguirão todos os dias da minha vida, e habitarei na casa do Senhor para sempre.

Ao terminar de declamar o salmo 23 de Davi Ela olhou para Ele e viu que dormia profundamente. Desprezando o apelo do travesseiro viciado, encostou sua testa na dele, como se quisesse entrar na mesma frequência de seus sonhos e adormeceu rapidamente.

E naquela manhã, por um motivo não difícil de explicar, o galo Gigante do vizinho esqueceu de cantar.

– Estou pensando em alguns poemas.

– Sério? Pensamentos bons. Se você não tivesse me acordado é bem provável que teria voltado a dormir.

– Pensando em alguns versos que você costuma repetir...

– Tipo?

Vou-me embora pra Passárgada

– Manuel Bandeira mas, é Pasárgada. Com um esse só. Diz-se pazárgada. Som de zê.

– Verdade?

– Verdadeira.

– E por que será que pegou essa forma de dizer? Todo mundo diz Passár...

– Deixe-me pensar...

Ela se achega para mais perto dele como se precisasse do seu calor para aquecer seu aparelho de pensar. Ele passa o braço esquerdo por baixo dos ombros dela. O queixo quase apoiado em seu ombro, parecendo querer assistir à tela de projeção de seu pensamento...

– Talvez alguém, um dia, sentiu necessidade de dar um passo definitivo para uma mudança radical de vida e se sentiu inspirado para dizer que ia embora e colocou a palavra passo dentro de Pasárgada e virou Passárgada...

– Olha... legal isso!

– Viajei né? Você sabe que gosto.

– Por que você acha que te acordei?

– Obrigada pela parte que não me toca.

– Sua boba, (puxando-a para mais perto, enlaçando a cintura dela com o braço direito e ela se encaixando mais). Você sabe que essa nossa hora faz muita diferença para o meu dia.

– Verdade?

– Verdadeira.

– Tem aquele verso que quando você diz parece sair do fundo da sua alma. Tudo vale a pena...

Quando a alma não é pequena (recitando juntos)

Ela...

– Fernando Pessoa

– Tão verdadeiro isso, não?

– Sim!! Poesia só contem verdades.

– E o poeta não é um fingidor? O poeta é um fingidor/Finge tão completamente/que chega a fingir que é dor/a dor que deveras sente

– Se finge que finge então não. O verdadeiro poeta tem conexão livre com os sentimentos. Se a vivência não for verdadeira, não sai poesia boa. A comunicação com o leitor não acontece.

– Tem um outro que gosto quando você declama: Peço-te/Não pises as violetas/ que trago no olhar. Cheiram a ti. São para ti/ Um bouquet de palavras que floriram/nesse tempo de amor.

– Pessoa.

– Fernando?

– Não, Joaquim Pessoa.

– Você gosta muito desse poeta, não é mesmo? Tem todos os livros dele.

– Amo. Quase todos.

Ele continua...

– O que será que ela fez que ele sentiu como um gesto tão cruel? Pisar as violetas?

– Palavras delicadas.... Pode ser que não o tenha compreendido...

– Mas ele sentiu o gesto dela como crueldade

– Ou será que ela foi desastrada?

– É! Realmente. Parece alguém desastrada. Viajou?

– Claro! Como haveria eu de saber?

– Voltando para Passárgada..

– Pasárgada!

– Sim! Pasárgada. Quando você diz: Lá sou amigo do Rei. Sabe que sinto ciúmes?

– Sério?

– Verdade verdadeira.

– Na Pasárgada todo mundo é amigo do Rei. Você também é.

Quando disse essa última frase procurou olha-lo de frente e percebeu que Ele estava quase dormindo, como se o desabafo do ciúme fosse aquilo que estava procurando expressão e atrapalhando o sono.

– Tem um poema que sei inteiro de cor. Acho que esse nunca declamei para você.

– Sim, qual?

O Senhor é o meu pastor, nada me faltará./ Deitar-me faz em verdes pastos; guia-me mansamente a águas tranquilas./ Refrigera minha alma; guia-me pelas veredas da justiça, por causa do seu nome./ Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum, porque tu estás comigo; a tua vara e o teu cajado me consolam./ Preparas uma mesa perante mim, na presença de meus inimigos; unges a minha cabeça com óleo; o meu cálice transborda./ Certamente que a bondade e a misericórdia me seguirão todos os dias da minha vida, e habitarei na casa do Senhor para sempre.

Ao terminar de declamar o salmo 23 de Davi Ela olhou para Ele e viu que dormia profundamente. Desprezando o apelo do travesseiro viciado, encostou sua testa na dele, como se quisesse entrar na mesma frequência de seus sonhos e adormeceu rapidamente.

E naquela manhã, por um motivo não difícil de explicar, o galo Gigante do vizinho esqueceu de cantar.

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