A HORA DA INSÔNIA 8
- Rosana Almeida
- 17 de jul. de 2020
- 4 min de leitura
Uma [leitura] rapidinha. Não vá dormir sem ela.
Ao contrário de seu habitual, naquela noite, Ela estava dormindo virada para o lado esquerdo. Era o lado da janela e do seu criado mudo. Ele, já acordado há alguns minutos, alternava o olhar entre o teto iluminado por algumas frestas mal encaixadas da veneziana e as costas dela. Uma paisagem que não era de seu inteiro agrado, pois provocava-lhe um sentimento difícil de explicar e que era novo para ele. Ficava curioso a respeito do que ela poderia estar sonhando enquanto ficava com o rosto voltado para a pilha de livros a espera de serem lidos. Era assim que ela chamava a pilha do canto inferior esquerdo. Havia até outras, mas pareciam não ter tanta importância para ela. Num ligeiro movimento com o corpo e sem provocar muitos reflexos no colchão de mola, Ele tentou espiar se Ela estava de olhos abertos. O que conseguiu reconhecer é que ela estava sorrindo. Que sonho seria aquele, com os livros, era isso que Ele achava, que não estava permitindo que Ela vivesse a sua insônia de sempre?
Não aguentou...
– Meu bem... você está dormindo?
– ... acho que estou.
– Quando você acordar, enxota o Gato Tom do meu lugar?
– Enxotar é um verbo que se usa para um animal qualquer e não para o Gato Tom. Ele não é um animal qualquer...
– Eu pensei que você estivesse dormindo.
– E estava... onde é o seu lugar e onde o Gato Tom está?
– No ângulo dos seus joelhos. Eu quero dormir na posição da colher. Você sabe que me ajuda a dormir novamente, mas o Tom não deixa que eu me aproxime de você.
– Querido... se aproxima que ele sai.
– Já tentei e não consegui.
– É? Quantas vezes você tentou?
– Ahnnn... uma.
– Então...
Ele tenta espremer o gato. Deveria estar também num sono profundo, pois não gostava de ser espremido.
– Está vendo? Não quer sair. Esse gato está muito folgado...
Ela acaricia, suavemente, o bichano com o dorso da mão. Ele levanta a cabeça, com sua cara mascarada de gato siamês e abre um bocão de sono. O que será que eles querem a esta hora? Deve ter se perguntado em seu pensamento gatuno. Levantou a coluna formando uma curva alta que mais lembrava um gráfico de COVID 19 de um país onde as pessoas insistem em não ficar em casa. Se dirigiu aos pés da cama, saltou e saiu do quarto a procura de algo para beliscar ou da sua caixa de areia.
Ele, sem demora, se encaixou no corpo dela e enlaçou sua cintura. Diz:
– Gato folgado esse, viu?
– O que estou vendo é que você anda ciumento ultimamente. Ciúme do Gato Tom, dos poemas e poetas que eu leio... Você não era assim. Parece ser um efeito do isolamento social. Acho que você está desocupado, sabia? Pelo menos não ouço de você as queixas que tenho ouvido das pessoas e que eu mesma tenho vivido.
– Pessoas? Que pessoas você anda conversando? Você andou saindo?
– Está vendo? Você nem percebe... Meu bem, onde está sua capacidade pensante? Pessoas que converso por aplicativo ou em redes sociais. Está todo mundo se queixando de excesso de trabalho. Tem de se cobrir tarefas profissionais e domésticas. Quem tem filhos, então, tem ainda as aulas online. Está muito difícil cobrir tudo sem comprometer a saúde emocional e física. Da minha parte, está difícil ter que pensar no artigo que estou escrevendo para a revista, no almoço, lavar o banheiro...
– Meu bem, eu lavei o banheiro para você. Não reparou?
– Lavou o banheiro para nós, você quer dizer. Sim, reparei. Você fez com dois cês. Claro que reparei.
– Dois cês?
– Capricho e carinho...
– Essa é nova?
– Acabei de inventar, mas é isso. Você está muito focado em mim. Faça algo que não conseguiu fazer em outras ocasiões. Comece um projeto que há muito sonha e não teve coragem de iniciar. Agora é o momento. Organize a sua coleção de gibis da Marvel, seus discos de vinil...
– (Muxoxo) Já tentei e acontece que cada vez que mexo nessas coleções tenho vontade de sair, ir em algum mercado de pulgas para ver se encontro algo interessante que ainda não tenho.
– Ótimo, mais um exercício: passar vontade. Querer mudar a realidade e não poder. Excelente opção para essa época. Vai te fortalecer emocionalmente.
Ela cobre a mão dele com as suas e sorri como se ele pudesse ver sua fisionomia de apoio e incentivo.
– Suas mãos estão geladas e seus pés também. Viu como o Gato Tom não cumpre bem o meu papel?
– Meu bem, é claro que não. O Gato Tom só cumpre o papel de gato da casa. Ele nunca seria capaz de substituir você, em nada! Nesta época de pandemia as pessoas estão tendo que admitir suas questões emocionais mal resolvidas. Vamos procurar um profissional online, amanhã, ok?
Enquanto diz isso Ela se volta para Ele e levantando o braço direito o abraça por trás da nuca. Ele continua em seu muxoxo...
– Você acha necessário, esse investimento, nesse momento?
– Disse bem, é um investimento. E não vamos deixar que algo, ainda pequeno, se torne maior e mais difícil de tratar. É um cuidado com você e com a nossa qualidade de vida. Vamos preservar o nosso bom. Se já está bom assim, imagine se melhorar?!!!
– Você tem razão, mas... poderíamos também procurar um veterinário psicólogo para o Gato Tom. Você não acha?
– Sim, acho. Se ele atender online...
Riram muito e se abraçaram e se beijaram e quando o Gato Tom voltou para o quarto percebeu que o seu lugar havia sido ocupado. Ou será que não era seu?








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